A decisão.
Não havia, por aqueles dias, nada que ela mais temesse. Sabia que o telefone ia tocar e que isso inevitavelmente faria com que a sua vida mudasse para sempre. Não tinha porém certeza de que essa mudança lhe fosse trazer o que procurava. O problema é que, quanto mais pensava no que procurava, menos o sabia. Queria certezas e queria mudanças. As segundas não trariam, certamente, as primeiras.
O que lhe passava muitas vezes pela cabeça era que, em boa verdade, são demasiadas as vezes em que queremos algo que não sabemos onde está ou do que advém. Queremos aventura, queremos tranquilidade, queremos desafios, queremos estabilidade. Queremos ser felizes. É isso. Queremos sempre, todos, de qualquer maneira, ser felizes. O problema de tudo isto é quando achamos que a felicidade é um estado e que atingir uma determinada meta nos levará a esse estado.
Naquele dia, ela pensava simplesmente se o telefonema tão esperado a levaria a ser feliz. Ou se, pelo contrário, a felicidade esteve sempre ali, ao alcance de um abraço, à espera de um sorriso. A maior dificuldade, pensou, está em identificar o caminho que nos leva à felicidade. Sabia que uma das maiores decisões da sua vida estava a poucos minutos de acontecer. Se a sua resposta fosse positiva, nada voltaria a ser o mesmo. Estaria longe de tudo o que até então conhecera por muito, muito tempo. Estaria longe do amor, o seu grande e, sabia-o, eterno amor. Não lhe pediria nunca que esperasse e tão pouco lhe pediria que deixasse tudo o que já construíra para partir com ela. Não seria justo e, no final de contas, o amor é deixar quem se ama ser feliz.
Precisava de uma mudança na sua vida, isso sabia-o com muita certeza. Só não estava certa de como afastar-se de tudo o que mais amava poderia ser parte dessa mudança de que tanto necessitava. O que fazer?
Seguir de mãos dadas com o amor e continuar nesse caminho que nunca a fizera infeliz, mas que não lhe parecia ser o que buscava para o resto da sua vida? Ou romper com tudo o que sempre tinha conhecido, deixar a sua cidade, o seu país, o seu trabalho e abraçar uma oportunidade totalmente egoísta de cumprir um sonho antigo? Partiria para África, onde ficaria meses, quem sabe anos, a fio, dedicando a sua vida a quem mais precisa de cuidados médicos e do carinho que uma jovem médica recém-formada e com vontade de viver pode proporcionar.
Mas, para isso, deixaria a sua família que muito precisava de si também. Deixaria sobretudo a sua avó que lhe dedicara grande parte da sua vida e que nos dias de hoje, estando doente, precisava do seu amor como nunca. Deixaria os seus próprios pacientes no hospital, muitos dos quais não viveriam certamente para a ver regressar - se isso viesse a acontecer um dia.
Deixaria o seu amor, planos de um casamento que não aconteceria e o seu lugar na vida dele. Onde estava a felicidade? Onde buscá-la? Qual o caminho que levaria até ela? Qual o arrependimento menos difícil de suportar?
O telefone tocou, por fim.
Comentários
Enviar um comentário