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A mostrar mensagens de maio, 2017

Maria.

Quando nasceste não choraste. Nem um pio. Nada. Também não tiveste um funeral e no dia da tua morte ninguém chorou. De resto, muito pouca gente se lembrará de ti. Foste Maria, podias ter sido Margarida ou Josefina ou Anabela. Quem saberá agora? Passaste pela vida exatamente como saíste do útero da tua mãe: em silêncio. Em silêncio assististe à sua morte lenta, ano após ano. Morreu de vez quando finalmente uma pancada do teu pai foi demasiado forte. A tua mãe também morreu em silêncio. Não sei se ela também era Maria, nunca foi importante. Sabias que ela chorava baixinho entre uma pancada e outra, mas ela ensinou-te que uma mulher, para ser mulher, tem que ser silenciosa e tu aprendeste rápido. Até parece que nasceste ensinada. Casaste em silêncio e em silêncio aguentaste o primeiro estalo, o primeiro puxão de cabelos, a primeira ameaça de morte. Casaste porque assim era esperado e porque assim poderias deixar a casa onde ainda vias a tua mãe a cada esquina. O teu pai de...

Nascer de novo.

Gasto a sola dos sapatos e o chão da maternidade. Percorro mais quilómetros hoje do que em qualquer uma das mini-maratonas em que ultimamente me (es)forço para participar. Não gosto propriamente de as fazer, mas seduz-me imaginar que fujo da realidade, desta vida que não escolhi. Quando páro de correr, estou aqui e não vejo saída. Estou nesta vida que eu não quero, nesta rotina que nada tem do que sonhei para mim. Um filho! Estou prestes a ter um filho e nem por mim próprio sei olhar. Que exemplo de pai serei eu? O que tenho eu para ensinar se já lhe desejei a morte mesmo antes da vida? O que lhe vou contar sobre o amor - a minha verdade? Serei eu capaz de suportar o olhar de condescendência adolescente quando, tal como me disse o meu pai, lhe disser que o amor é uma “treta inventada por hollywood”? Quanto tempo levará até que ele desista de mim - um pai frustrado, sem amor e sem valor, que lhe deu a vida e lhe desejou a morte? “Parabéns, Pai. O seu rapaz já é um valentão!”....

O último presente.

Desembrulhei o teu último presente, meu amor. O último! Como é triste esta palavra: não me deixa esquecer que a partir de agora só a tua lembrança me resta. A tua lembrança e estas folhas onde vou deixando pedaços da minha alma. Já sei o que estás a pensar, M. - que estou a ser pessimista, que há muita vida lá fora, que eu e esta sala pouco iluminada não fomos feitas uma para a outra. Prometi-te estar preparada para seguir em frente - é por isso que me deixas, como último presente, este livro intitulado “Promete-me”? - e eu sei o quanto odeias promessas quebradas. Bolas! Que raiva de te ter perdido, M.. Que raiva desta vida desgraçada que acaba antes do tempo. Que raiva, que ódio dessa maldita doença que nunca te roubou o sorriso, mas te roubou de mim! Que raiva de ti que me deixaste, M., e que raiva dessa tua mania de que eu sou mais forte do que penso. Perdoa-me, meu amor, mas eu não quero seguir em frente. Ainda tenho a tua garrafa de whiskey favorita: está na mes...