Maria.
Quando nasceste não choraste. Nem um pio. Nada.
Também não tiveste um funeral e no dia da tua morte ninguém chorou. De resto, muito pouca gente se lembrará de ti. Foste Maria, podias ter sido Margarida ou Josefina ou Anabela. Quem saberá agora?
Passaste pela vida exatamente como saíste do útero da tua mãe: em silêncio. Em silêncio assististe à sua morte lenta, ano após ano. Morreu de vez quando finalmente uma pancada do teu pai foi demasiado forte. A tua mãe também morreu em silêncio. Não sei se ela também era Maria, nunca foi importante. Sabias que ela chorava baixinho entre uma pancada e outra, mas ela ensinou-te que uma mulher, para ser mulher, tem que ser silenciosa e tu aprendeste rápido. Até parece que nasceste ensinada.
Casaste em silêncio e em silêncio aguentaste o primeiro estalo, o primeiro puxão de cabelos, a primeira ameaça de morte. Casaste porque assim era esperado e porque assim poderias deixar a casa onde ainda vias a tua mãe a cada esquina. O teu pai decidiu quem seria um bom marido e tu aceitaste casar com o João. João era o seu nome, isso nós sabemos.
Morreste ao ser mãe. O ar fugiu dos teus pulmões quando te preparavas para, pela primeira vez, gritar. De dor, de raiva, de esperança. Mas ninguém te ouviu. Quem te iria ouvir, Maria? Não sejas ingénua. A tua Maria (ou Margarida ou Josefina ou Anabela) nasceu. Da sua garganta nem um pio. Ainda.
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