Nascer de novo.

Gasto a sola dos sapatos e o chão da maternidade. Percorro mais quilómetros hoje do que em qualquer uma das mini-maratonas em que ultimamente me (es)forço para participar. Não gosto propriamente de as fazer, mas seduz-me imaginar que fujo da realidade, desta vida que não escolhi. Quando páro de correr, estou aqui e não vejo saída. Estou nesta vida que eu não quero, nesta rotina que nada tem do que sonhei para mim. Um filho! Estou prestes a ter um filho e nem por mim próprio sei olhar. Que exemplo de pai serei eu? O que tenho eu para ensinar se já lhe desejei a morte mesmo antes da vida? O que lhe vou contar sobre o amor - a minha verdade? Serei eu capaz de suportar o olhar de condescendência adolescente quando, tal como me disse o meu pai, lhe disser que o amor é uma “treta inventada por hollywood”? Quanto tempo levará até que ele desista de mim - um pai frustrado, sem amor e sem valor, que lhe deu a vida e lhe desejou a morte?
“Parabéns, Pai. O seu rapaz já é um valentão!”. Não reajo. Vejo-o, mas não lhe toco. E então choro. Choro como nunca e sinto o sabor diferente destas lágrimas. “São lágrimas de amor”, atira-me a enfermeira, sem piedade pela minha convulsão sentimental embaraçosa. Sinto-me sufocar: o meu pobre cérebro não sabe como processar tanta informação emocional. Arrependo-me: de não o querer, de maldizer o dia em que, por uma horas de prazer, o concebi. Como fui ridículo durante toda a vida; tantas palavras inúteis, tanto tempo mal gasto.

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