Das (i)moralidades
Arnaldo Biscaia é um homem de bem: devoto convicto, e possuidor de valores morais superiores, Biscaia sabe-se um exemplo para muitos. Para seus filhos deseja o melhor: que Madalena encontre um marido trabalhador e Artur um bom emprego, onde lhe paguem um salário digno de um rapaz de tão esmerada educação doméstica. Na escola Arnaldo não acredita e, portanto, espera que, terminada a obrigatoriedade dos doze anos, Artur e Madalena se dediquem à procura de um bom ofício e de um bom casamento, respetivamente.
A mulher de Arnaldo, Brígida, sonha com o dia em que o seu Arturzinho irá ser chamado de Doutor Biscaia. Porém, numa família tradicional como esta, Arnaldo tem a palavra final nos sonhos familiares e assim é que deve ser.
A descrença de Arnaldo no sistema de ensino tem duas razões. A primeira é uma razão prática: os diplomados estão todos no desemprego ou no estrangeiro. Arnaldo confia nos seus conhecimentos e até já falou de Artur no café - o Gouveia garantiu que o primo lhe arranja trabalho nos computadores assim que o gaiato termine o 12º.
A segunda razão é moral, que para Arnaldo nada é mais importante do que a salvaguarda da moralidade da família Biscaia. Ora consta que o professor de matemática do liceu local vive amancebado com outro indivíduo. Arnaldo não é de se meter em vidas alheias e para ele cada um saberá de si enquanto Deus certamente saberá de todos, mas, sendo um pai responsável, não pode evitar a preocupação.
Madalena insiste que Rui é um excelente professor e que a sua vida privada não vem ao caso. Mas para Arnaldo não há discussão: esta geração está perdida e a culpa é desta imoralidade nas escolas. Onde já se viu aceitar uma coisa destas? No seu tempo é que era...
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